Rosa. A imortalidade e a vida.

"As pessoas não morrem, ficam encantadas". Esta frase, dita por Guimarães Rosa em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, há mais de 50 anos, ainda nos faz pensar sobre a vida e a morte. 

Então, busco aqui algumas afirmações do próprio Rosa e da filosofia chinesa, sobre a vida e a morte.

"Viver é um descuido prosseguido", escreveu Rosa. (1) 

Em "Os Analectos" diz: "Confúcio, ao ser interrogado certa vez sobre a imortalidade da alma, respondeu: Se não compreendo a vida como compreenderei a morte?" (2) 

"Os fortes não podem dominar sua morte: considero este o pai dos ensinamentos" (3). Em outra tradução do Tao te King, este trecho do poema 42 é escrito assim: "Nem os fortes nem os violentos morrem em seu leito. Utiliza este pensamento para seguir o caminho". (4) 

Ainda em seu discurso na ABL, Rosa diz: "Mas - o que é um pormenor de ausência. Faz diferença? “Choras os que não devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta" - Krishna instrui Arjuna, no Bhágavad Gita. A gente morre é para provar que viveu. Só o epitáfio é fórmula lapidar. Elogio que vale, em si, perfeito único, sumário: JOÃO NEVES DA FONTOURA."

Rosa faz o seu discurso em homenagem a João Neves da Fontoura, que ocupou a Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras, falecido 4 anos antes. Mais que amigos e colegas de Itamaraty, Rosa tinha uma relação quase que de "Mestre e Discípulo" com João Neves. Diz:  "Nem o que queria atinjo. Como redemonstrar a grandeza individual de um homem, mérito longuíssimo, sua humanidade profunda: passar do João Neves relativo ao João Neves absoluto? Sua perene lembrança - me reobriga. O afeto propõe fortes e miúdas reminiscências. Por essa mesma proximidade, tanto e muito me escapa; fino, estranho, inacabado, é sempre o destino da gente".

Sobre a ideia de "destino", tão presente no Grande Sertão: Veredas, lembro alguns pequenos trechos.

"E que: para cada dia, e a cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa." (...) Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível, mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro para cada representador -sua parte, que antes já foi inventada, num papel"... (5) 

"Aquela hora, eu só não me desconheci, porque bebi de mim -esses mares. Também eu não ia naquilo sem alguma razão, mas movido merecido". (6) 

"O senhor vê aonde é o sertão? Beira dele, meio dele?...Tudo sai é mesmo de escuros buracos, tirante o que vem do Céu. Eu sei." (7) 

O Tao é traduzido como "o caminho". Aquele que segue o seu próprio caminho, segue o Tao. Ou seja, cumpre o seu destino, da melhor maneira possível. 

"O regresso ao destino se chama eternidade

O que conhece o eterno, se chama iluminado

O que desconhece o eterno, encontra a miséria

Quem conhece a eternidade, tudo possui

Quem é justo com os demais, é soberano

Quem é soberano, é semelhante ao Supremo

O Supremo é o caminho do Tao

alcançando o Tao, terá a vida eterna

E ainda que seu corpo morra, nunca perecerá" (8)

Unindo ainda mais seus destinos, Rosa e João Neves, ambos se tornaram "imortais", segundo a tradição dos que adentram a Academia Brasileira de Letras. Mas algumas "coincidências" me chamaram a atenção. 

João Neves escreveu seu último livro, "Memórias", publicado no mesmo ano de sua morte: 1963. Rosa comenta em seu discurso na ABL: "Vem franquear, a quantos, um fundo de consciência, o centro de sua personalidade. Ele mesmo - transretratado. Direi, escreveu-o para o Juízo Final, como todo livro deveria ser escrito".

Neste mesmo ano, 1963, Rosa foi eleito para assumir uma vaga na Academia. Mas, seguindo a sua intuição, adiou por 4 anos a sua posse. Uns dizem que ele era cardíaco e por, superstição, teria medo de passar por tal emoção. 

Fato é que ele finalmente tomou posse na Academia no dia 16 de novembro de 1967, exatamente na data em que João Neves da Fontoura completaria 80 anos. 

Neste dia, então, seguindo a tradição, Rosa tornou-se "Imortal". Mas, o destino, novamente ele, quis que seu falecimento ocorresse 3 dias depois, em 19/11/67.

A minha "interpretação" é de que Rosa se tornou imortal, e ressuscitou no 3º dia.

"Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas- e só essas poucas veredas, veredazinhas". (9)

Então? Viver não é mesmo muito perigoso?


Notas:

 (1) (GS:V, Ed. Nova Fronteira, 19ª Edição, pág 86)

(2) Os Analectos, Confúcio. Ed. Pensamento. Pág 42

(3) Poema 42 do Tao te King, no livro "O Essencial do Tao", Thomas Cleary, Ed. Best Seller, 2ª edição, Pág 53 .

(4) Poema 42 do Tao te King, no livro "Tao te King, Lao Tse, o livro do sentido e da vida", Hemus Editora, 1983, pág 103.

(5) (GS:V, Ed. Nova Fronteira, 19ª Edição, pág 500)

(6) (GS:V, Ed. Nova Fronteira, 19ª Edição, pág 521)

(7) (GS:V, Ed. Nova Fronteira, 19ª Edição, pág 611)

(8) Trecho do Poema 16 do Tao te King, no livro "Tao te King, Lao Tse, o livro do sentido e da vida", Hemus Editora, 1983, pág 49.

(9) (GS:V, Ed. Nova Fronteira, 19ª Edição, pág 116)

Link para o discurso de posse de JGR na ABL: http://www.elfikurten.com.br/2011/02/guimaraes-rosa-discurso-de-posse-na.html

Link para o perfil de João Neves da Fontoura no wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Neves_da_Fontoura


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